RITUAL DAS TUCANDEIRAS: A DANÇA DAS FORMIGAS
08.01.2010
ÚLTIMA ATUALIZAÇÃO: 09/01/2010 às 21h19
Na próxima semana vamos mostrar um pouco mais sobre essa série da amazônia. A postagem seguinte, que quero colocar no ar já na segunda-feira, é sobre um mergulho muito especial no Rio Negro, ao lado de Botos cor-de-rosa! A iniciativa com animais selvagens - porém dóceis - faz parte de um projeto de "Bototerapia" para crianças especiais. A minha passagem pela região não foi à trabalho, portanto essa imagens não irão ao ar. Na verdade, fui passar o feriado de ano novo em um hotel de selva, que fica quase a duas horas de barco partindo de Manaus. Deste ponto há possibilidade de visitação à tribo onde ocorre o "ritual das formigas", ao projeto dos botos e a várias outras aventuras.
Para encerrar, um alerta que, por questão de tempo, acabamos não mostrando no RJ RECORD deste sábado:
Atenção para os bairros onde há alto índice de infestação de dengue:
ANCHIETA, GUADALUPE, MARECHAL HERMES, PAVUNA, ROCHA MIRANDA, MADUREIRA, ACARI, IRAJÁ, VISTA ALEGRE, VIGÁRIO GERAL, PENHA, OLARIA, ILHA DO GOVERNADOR, RAMOS, BONSUCESSO, COMPLEXO DA MARÉ E COMPLEXO DO ALEMÃO.
Bom domingo! Divirta-se com responsabilidade!
Fábio Ramalho
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POSTAGEM ORIGINAL:
O preparo começa ainda cedo. Índios de todas as idades saem para uma caçada. O alvo não são onças, macacos, jacarés ou qualquer outro bicho que possa servir de alimento. Os índios da tribo "Saterê-Maué" estão à procura de formigas. Numa maloca localizada há quase duas horas de barco saindo de Manaus, no meio do mato fechado, esta procura por formigas chamadas “tucandeiras” tem um objetivo muito especial: elas fazem parte de um ritual que marca a passagem de adolescentes para a vida adulta. Uma passagem marcada por uma picada - ou várias delas - que causam dor, quase que insuportável, por pelo menos 15 horas.

Floresta de "Igapó": área amazônica alagada quando o Rio Negro sobe. Localidade dos índios "Saterê-Maué". Foto: Eduardo Almeida
Depois da “caçada” a cena é difícil de acreditar: uma luva de palha trançada é cheia destas formigas. Como que num ritual sádico, não basta apenas colocar as “formiguinhas” lá dentro. Como que em um requinte de crueldade, elas - cerca de cinquenta - são “amarradas” de forma que, para dentro da luva, só fiquem os ferrões. Está tudo pronto: é só esperar a noite cair quando as formigas presas o dia todo, já estarão nervosas e famintas, para o ritual começar.

Luva de palha cheia de Formigas Tucandeiras (esquerda). No detalhe, a parte interna da luva: só os ferrões ficam à mostra antes do ritual começar (direita).
A noite cai e os convidados chegam à maloca indígena "Sahu-Apé". Entre estes convidados estou eu, paralisado e surpreso ao ver pela primeira vez esse tipo de formiga de perto. Em qualquer incursão no meio da floresta amazônica as tucandeiras são um temor. Não há um único guia local que não chame a atenção para que se evite o contato com esse tipo de formiga. E eu que imaginava que as cobras e jacarés eram o maior risco na selva. Menores e mais camufladas, as tucandeiras podem estar em troncos, árvores, galhos... onde menos se espera.
O ritual começa com um “drink” de boas vindas. Os índios servem em uma cuia uma bebida feita à base de mandioca. Uma bebida que, apesar de fermentada, tem um leve sabor adocicado. Para “marinheiros de primeira viagem” é muito difícil definir um sabor que se prova pela primeira vez.
TARUBÁ: Bebida forte, fermentada, porém levemente adocicada.
A cerimônia indígena se inicia. A dança ritmada abre a cerimônia com cantos. Muitos desses cânticos já são, infelizmente, em português. É a nossa influência do homem branco numa terra que antes era só deles. As crianças participam e acompanham tudo atentamente, principalmente os meninos. Os meninos de hoje serão os adolescentes de amanhã; e todos terão que passar por esse ritual um dia.
O momento mais esperado chega e o jovem de 12 anos é apresentado. São poucos minutos até que passe quase que como em “revista” aos mais velhos da aldeia. É a hora mais esperada quando aquela luva é encaixada em uma das mãos. Não há sequer um esboço de desconforto ou dor.
Luva de "Formigas Tucandeiras" na mão do índio de 12 anos.
O ritual segue com pelo menos mais uns 20 a 25 minutos de dança, onde o garoto segue o passo ritmado de batidas com os pés no chão. Quase uma provocação às formigas que, irritadas, fazem sua parte...
Índio segue o ritual dançando por quase meia hora com mão esquerda na luva (centro).
O garoto que passou pelo ritual não foi mais visto naquela noite. Depois de retirada a luva ele é levado pelos pais e índios mais velhos. Antes disso eles cederam a um apelo dos visitantes e quase jornalístico de minha parte: peço para tirar uma foto de como ficou a mão do “ex-adolescente”.
Detalhe da mão esquerda: pele escurecida, dolorida e dormente com 50 ferroadas.
O inchaço, apesar de não ser imediato, já começa a aparecer. A mão está escura, cheia de picadas, aparentemente dolorida. O garoto não deixa uma única lágrima de dor aparecer. Ele está pronto para se tornar um guerreiro e, mais para frente, ter sua esposa e seus filhos. Para ele o ritual acabou, mas a dor ainda não. São horas e horas de uma longa madrugada de agonia onde, quem já passou garante: conseguir dormir é um privilégio conquistado até hoje por poucos.
A cerimônia acaba e aí é a hora de comemorar: o pequeno "ex-curumim" agora é homem. A comemoração é feita à base de Pintado assado na folha de bananeira e jacará assado. Todos são servidos: índios, visitantes e todos que aceitam provar as iguarias alí servidas. Posso garantir: tudo deliciosamente preparado e com sabores e temperos jamais experimentados por um “cara-pálida” como eu.
Jantar servido: Pintado na folha de bananeira e "rabo de jacaré" (acima).
Apesar de toda a dor e sofrimento consegui captar mais: só mesmo estando próximo para entender que aquele ritual de passagem diz muito mais para aqueles índios do que se imagina. É o primeiro treinamento para se lidar com dificuldades da vida, com a dor, com as perdas que somos obrigados a encarar na idade adulta. O ritual me faz lembrar o básico: a concentração, a elevação da alma que pode aliviar, através do espírito, a dor que vem do corpo. Me perguntei silenciosamente: será que as vezes nosso “rituais-sociais” de passagem não são até mais doloridos?
Aquilo tudo me fez compreender mais os nossos próprios rituais “urbanos e contemporâneos”. A auto-afirmação masculina, a necessidade de mostrar que crescemos. Este é um sentimento, quase uma necessidade única, que se expande desde os povos gelados do Polo Norte até às tribos tropicais do nosso país. Todos nós passamos pela nossa própria dança das formigas...
Ritual com crianças e adultos. Ao lado o símbolo da maloca: a luva com as formigas.
Da tribo levei fotos e um pequeno banco de "Mongoló". Uma madeira tão leve que lembra um isopor; porém resistente o suficiente para aguentar meu peso. Uma lição à parte que tem tudo a ver com o conceito da “prova” vencida por aquele jovem. Exatamente como nossos sentimentos as vezes precisam ser. Mas o maior legado foi aprender isso numa das experiências mais interessantes que já passei.
Crianças de hoje, adolescentes que participarão do ritual amanhã...
Na despedida, um recado da chefe da tribo - sim é uma mulher - nutre ainda mais a sensação de que estamos em integração alí, com eles, no meio do mato: quem não tomou aquela bebida oferecida no início da cerimônia, o “Tarubá”, está fadado a levar toda a "má-sorte" da maloca consigo.
No meu caso, fui embora tranquilo. Pude sorver cada gole daquela bebida e da experiência que ensina muito com tão pouco: com uma formiguinha.
FESTA NO "HOJE EM DIA"
07.01.2010
Uma postagem simples e rápida. O parabéns é ao nosso colega Amim Kader, que comemorou ontem seu aniversário aqui no Rio de Janeiro. Como Amim é peça com selo de "patrimônio" do nosso matutino "Hoje em Dia", não deu outra: eu e a Mariana Leão não poderíamos deixar de ir. A foto foi tirado do celular do Duda, marido da Mariana. Claro, nossos aparelhinhos não são nenhum primor em qualidade como as fotos que sairam dos vários "paparazzi" que invadiram a churrascaria Porcão, na Barra da Tijuca. Eita aniversariante badalado, hein?
Fábio Ramalho, Amim Kader e Mariana Leão. Bolo e... quantas velinhas?
Por falar em bolo, lembrei de doce e por tabela de formigas! Isso mesmo: formigas! Mas calma que eu explico o porquê...
Semana pasada participei de um ritual indígena chamado "Ritual da Tucandeira" em plena amazônia. Trata-se da passagem dos índios da adolescência para a idade adulta numa determinada tribo, no coração da floresta.
Sabe como é? Uma luva de palha é cheia de formigas "tucandeiras" - a picada causa dor por 15 horas - e o jovem, passa todo o ritual com uma das mãos dentro desta luva! Dá para imaginar que ritual dolorido? Vou postar as fotos e contar um pouco dessa história na próxima postagem. Quem tem sangue frio e aguenta essa... é só conferir!
DESLIZAMENTO MORAL...
05.01.2010
ÚLTIMA ATUALIZAÇÃO: 06/01/2010 às 14h27
Nada como ter telespectadores inteligentes e antenados. Foi só jogar a "isca" da discussão, que o óbvio apareceu nos comentários. Óbvio, claro e evidente que a questão de habitação nessas encostas é uma hipocrisia, como disse o governador. Mas também são dos nossos políticos, como o GOVERNADOR, o "ônus" destas áreas virarem verdadeiros bairros em áreas ameaçadas.
A pergunta que fica agora é: onde estavam as mesmas autoridades que agora tiram essas família, quando essas casas ainda estavam sendo construídas? Onde estava quem hoje cobra providência de retirada de famílias?
Morro da Carioca em Angra. Clareira "sangrada" na mata. Foto: Agência "O Dia"
Quem comentou aqui no blog; como a Alessandra Marcelino, a Ana Cris, o Francisco Júnior, a Jacqueline, o Denilson de Saracuruna, a Alessandra Vieira, a Selma e o Gilberto, entenderam bem este ponto.
O que esperamos agora é que, quem está à frente do governo nesse momento, realmente possa apresentar soluções definitivas e não apenas um remédio paleativo que se dissolva na água da chuva. Governos vem e vão. Mas as comunidades ficam. Lembrem-se de nomes, de partidos, de políticos que não fazem. Assim como lembremo-nos também dos que fazem. O retorno da política equilibrada e honesta na democracia é esse: quem faz e resolve se reelege. Quem embroma e enrrola não pode ficar. Será que até as urnas a gente lembra dos trancos e literalmente dos "BARRANCOS" que passamos?
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POSTAGEM ORIGINAL:
Quando fazia a cobertura política em Brasília acreditava que fatos “cíclicos” eram apenas um “privilégio” da esfera política no Congresso Nacional. Eram fatos que se repetiam, todos os anos, na aprovação do orçamento, eleições dos presidentes das casas e por aí vai. Hoje percebo que as notícias em nosso país são muito mais cíclicas do que poderia imaginar. As tragédias não escapam dessa terrível sina do “acontece-tudo-de-novo”.
Nas chuvas do Rio de Janeiro parece que tudo segue a mesma lógica. Dessa vez vou até deixar a Baixada Fluminense de lado e me ater apenas a Angra dos Reis. Já havia acontecido em 2002 e agora veio tudo abaixo de novo. E eu me pergunto: o que mudou de lá para cá na tragédia registrada semana passada?
Esse “NADA” que mudou, com letras garrafais, foi o tema da conversa que tive ontem com o governador Sérgio Cabral sobre os deslizamentos. Ouvi comentários que fui extremamente enfático na cobrança de providências. Será?
O que sobrou da praia onde estava a pousada Sankay, em Ilha Grande,
Angra dos Reis. Foto: R7
Posso garantir aqui que, com as luzes das câmeras apagadas, acho que fui ainda mais enfático. O governador me entendeu. Acredito que Sérgio Cabral viu que, quem cobrava alí, na frente dele, era um jornalista que se sente tão ou mais carioca que muita gente que vive aqui.
Porque então não acontece NADA? O governador me respondeu e vi honestidade alí: a resposta é que o revés político de se resolver problemas assim não é leve. Retirar pessoas que investiram todas suas economias em uma moradia não é fácil. Há resistência. Mas a resistência maior é a política.
O "antes" de o "depois" de uma tragédia. Dá para acreditar que é o mesmo lugar?
Fotos: agência "O Dia" e divulgação "Pousada Sankay"
Se você é ligado em política ou viu ontem o RJ RECORD, deve ter observado que uma coisa parecia estar fora do lugar nessa discussão: como o governo que promete assumir esse ônus político é o mesmo que no ano passado aprovou uma lei que beneficiava a regularização de quem construiu em áreas ambientais na mesma Angra dos Reis?
O decreto que criou novas regras para a legalização do que já estava construído acabou ganhando o nome de "decreto Luciano Huck” por beneficiar apresentadores e artistas de televisão. A resposta do governador me pareceu lógica: mesmo correndo o risco de parecer beneficiar só quem tem dinheiro, não é essa a categoria que constrói suas casas em áreas perigosas. Essa categoria é a que mais investe em examinar bem a área de suas obras. Nas palavras do governador, é preciso acabar com a hipocrisia. Não adianta haver leis que proíbam tudo mas num estado com prefeituras que não fiscalizam nada.
Meu pensamento agora pode até estar contaminado por um argumento tão contundente. Mas será que não há razão nisso? Será que não falta cobrar bem o IPTU dos ricos - que já levantaram seus castelos - para investir em fiscalização e evitar novas construções irregulares (sejam de ricos ou pobres)?
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